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Primeiro registro sobre o carnaval em Taubaté data de 1862

 
Fonte: Revista Taubaté – 22 de fevereiro de 2007

 
Em Taubaté, como em qualquer lugar do mundo, a concepção dessa festa popular pagã é de liberdade, euforia e fantasia. Durante as comemorações do carnaval, que duram três dias e precedem a quarta-feira de cinzas, as pessoas usavam máscaras, fantasiavam-se das mais diferentes formas e adotavam atitudes incomuns à época, como comer e beber excessivamente e praticar orgias. Desse ponto de vista, pouca coisa mudou no carnaval, mas os anos permitiram que os festejos carnavalescos ganhassem ares mais pomposos, com carros alegóricos, samba-enredos e troféus e prêmios em dinheiro para as melhores agremiações carnavalescas. O carnaval passou de simples festa popular para uma competição organizada.
 
Taubaté também preserva essa cultura pagã e hoje o carnaval tem até lugar certo para acontecer. Mas como eram os carnavais na cidade no passado remoto? Desde quando se comemorava esse tributo a deuses libertinos em Taubaté?
 
Na tese “O carnaval de Taubaté: Fatos e Formas”, de 1997, a historiadora Sônia Maria Salgado defende que o carnaval taubateano foi uma adaptação do carnaval feito no Rio de Janeiro, sem sofrer inicialmente influências africanas.
 
“O Carnaval, quando começou em Taubaté, em meados do século XIX, deve ter sido uma festa com modelos da elite carioca trazido pelos fazendeiros de café, que freqüentavam a Corte, no Rio de Janeiro. Lendo-se os jornais da época tem-se a impressão que a marginalização da população negra ou mesmo das camadas mais pobres, era total. Desde 1890 até, mais ou menos, a década de 40, não há menção da participação do negro ou de qualquer indivíduo subalterno, logo não há menção de samba e outras formas populares de festa” (p.12).
 
Na monografia apresentada ao Departamento de Ciências Sociais e Letras da Unitau (Universidade de Taubaté) para obtenção do grau de Licenciatura Plena em História, a então aluna Sônia Maria Salgado conclui que o carnaval taubateano, originário da festa carioca, foi evoluindo com o tempo e ganhou outros valores, como o próprio samba, que mais tarde foi incorporado nos festejos.
 
“E mesmo partindo das premissas que o Carnaval taubateano é uma ‘imitação’ do carioca, é uma festa de já quase 100 anos e, durante este tempo, envolveu famílias e comunidades, despertou paixões e, com seus altos e baixos, não deixou de exercer a função de ‘válvula de escape’ das tensões sociais” (p.28).
O primeiro registro sobre o carnaval de Taubaté está na edição n° 23 do jornal O Taubatéense, de 15 de fevereiro de 1862, encontrado na hemeroteca da Divisão de Museus, Patrimônio e Arquivo Histórico de Taubaté. O texto faz votos para que o carnaval fosse animado naquele ano.
 
“Houve felismente quem se lembrasse do carnaval nesta cidade, e seria para lastimar a falta d’este divertimento, pois que foi esta cidade quem deu exemplo as suas visinhas. Esperamos que os taubateanos se prestarão para este agradável divertimento .”
 
O Taubatéense foi o primeiro jornal de Taubaté, fundado em 29 de agosto de 1861, e circulava às quintas-feiras. No editorial da primeira edição, o jornal, propriedade de Francisco Xavier de Assis, se caracterizava como um periódico “pacífico, unicamente literário, noticioso agrícola e comercial”, cujo objetivo, dentre outros, era divulgar as novidades e acontecimentos da cidade. Sendo assim, no primeiro carnaval presenciado pelo impresso, as notícias sobre o carnaval eram revestidas com detalhes e opiniões de quem esteve presente aos festejos.
 
Segundo os registros desse jornal, o carnaval de 1862 foi marcado com chuva, que não impediu, no entanto, a saída dos foliões às ruas usando máscaras e fantasias. Não há registro de carros alegóricos nem de crítica, mas o jornal já atentava para a necessidade de centralizar os festejos do carnaval.
 
“Na primeira tarde, apareceram 80 e tantos máscaras a cavallo e a pé, entr’eles, o que mais despertou a curiosidade pública foi uma mesa movida por dois mascaras que assentados nas duas extremidades, um vestido de mulher, fasia sapatos, e cair, ao atravessar a rua do Rosário, grossa chuva que durou duas horas.”
 
O carnaval sempre esteve associado à liberdade, não só do corpo, com a prática de orgias, mas também a de expressão, fazendo críticas aos costumes da época, à Igreja e mesmo aos órgãos públicos.
 
“Na segunda tarde, os ares estiveram mais limpos, sendo o divertimento mais completo appareceu igual numero de mascaras, uns ricamente vestidos, e outros esquisitamente vestidos, sobresahindo como cousa mais singular um vestido todo de canudos de taquara, estes canudos eram uns doirados, outros pintados, colocados simetricamente de modo que agradou geralmente, e o que a curiosidade geral não se satisfasia em ver foi uma ‘fálua’ ou canoa grande movida por dois mascaras sentados nas extremidades, sendo uma irmã de caridade de um lado, e de outro um marinheiro com grande remo em punho remando. Na terceira tarde, appareceu ainda maior numero, mas não temos raridade alguma a consignar. Só notamos andarem muito dispersos e não cumprirem o programa.”
 
Ainda nesse ano, a Sociedade Concórdia Familiar promoveu dois bailes para marcar a entrada da quaresma, nos dias 2 e 4 de março, sendo que o primeiro baile aconteceu na casa do Comendador Costa Guimarães. De acordo com o jornal O Taubatéense, “também houve baile musque no dia 4, e nos consta que foi muito concorrido e que muitos indivíduos foram debicados, pois devião saber que os mascaras nesses dias ficam mais audaciosos que o grito nacional”.
 
No ano seguinte, a população mostrou-se mais animada para as comemorações. No dia 7 de fevereiro de 1863, um bando de mascarados saiu às ruas fazendo a tradicional bagunça, e no domingo, dia 15 de fevereiro, duas bandas musicais tocaram durante o trajeto da Sociedade Carnavalesca Taubateense, que saiu do largo da Palmeira, às 15 horas, e percorreu as ruas do Rosário, Sacramento, do Meio, Cadeia, Sant’Ana, Piedade, passando por vários largos e vielas.
 
O jornal O Paulista, cujo redator era Antonio Joaquim Manoel do Prado, teceu críticas favoráveis ao cortejo da Sociedade Carnavalesca Taubateense, na edição n° 26: “O corso da Sociedade era muito bem organizado, primando pela ordem e segurança da população.”
 
O carnaval de Taubaté era comemorado nas ruas centrais, com préstito (grupo numeroso de pessoas em marcha) e corso (desfile de carros) e terminava nos tradicionais clubes da cidade, onde ocorriam bailes à fantasia.
 
Em 1889, havia na cidade três clubes carnavalescos responsáveis pelo carnaval de rua: Mandarim, Carmosina e Bilontras.
 
No domingo que antecedeu o carnaval, os clubes Mandarim e Carmosina esquentaram o ânimo dos foliões com dois Zé Pereiras.
 
O Noticiarista, jornal independente fundado em 1888 por Camargo, Toledo & Cia, acompanhava as festividades pagãs e publicava notas com elogio aos grupos que se destacavam, como se observa na edição de 31 de janeiro de 1889: “Domingo passado o Club Mandarim deu-nos um explendido e deslumbrante Zé Pereira, que revolucionou a nossa cidade. Palavra, aquilo parecia mais um bando em dia de carnaval, que um Zé Pereira. Sim, senhores, muito bem!”
 
O Carmosina ofereceu um baile aos sócios no dia 3 de março de 1889, na sede do clube, localizado na rua Visconde do Rio Branco, 24. O Club Mandarim, formado essencialmente por jovens rapazes que trabalhavam no comércio local, realizou um Zé Pereira pelas ruas da cidade.
 
Assim, o carnaval de Taubaté percorria as ruas centrais, com os grupos de foliões – conhecidos como Zé Pereiras – provocando a farra, e os clubes oferecendo bailes à fantasia para os associados e seus convidados. Duas brincadeiras muito comuns e também muito temidas nessa época, provavelmente herdadas da cultura carioca, eram o “limão de cheiro”, que consistia em atirar água nas pessoas, e a “laranjinha”.
 
“Nas duas primeiras décadas do séc. XX houve, por motivos econômicos, a decadência do carnaval taubateano. Os préstitos desapareceram, existiam somente as guerras, brincadeiras entre poucos grupos, de atirar confetes, serpentinas, laranjinhas (líquido que jogado na roupa da pessoa dava a impressão de sujá-la) e lança-perfume.” (SALGADO, S. M., 1997, p.12).
 
Assim como o jornal O Taubatéense, em 1862, fazia votos de prosperidade ao tríduo carnavalesco de Taubaté, outros jornais que surgiram posteriormente desejavam ver animados os festejos ao deus Momo. Ano após ano, os impressos retratavam – ou por vez – lamentavam as comemorações de carnaval em Taubaté.
 
Apesar das supostas crises, o carnaval de Taubaté também passou por anos de muita animação, com o surgimento de blocos carnavalescos, por exemplo, e com a ressurreição dos desfiles de carros alegóricos e de críticas, e renovou, criando marchinhas específicas para o carnaval da cidade, como em 1927, que resultaria, mais tarde, nos samba-enredos de hoje. É a tradição do carnaval taubateano prevalecendo no tempo.
 
(Foi conservada a gramática vigente da época, conforme se encontra no próprio jornal)
Fonte: Divisão de Museus e Arquivo Histórico de Taubaté
 

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