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Chico Anísio ou a arte de envelhecer

 

 

Não sei quem disse – ou escreveu – que “envelhecer é uma arte”, acredito que seja um fato mesmo porque já passei dos sessenta, e percebo a grande dificuldade que é lidar com isso. Ainda mais neste mundo de tecnologia, onde  o hoje já é passado, num mundo de alguns novos conceitos e velhos  preconceitos. Uma arte complicada  pois nós , os velhos, corremos o risco de não querer envelhecer, e o que é pior, querer se adaptar à uma juventude que se foi. Neste contexto, o mais difícil é envelhecer mantendo a dignidade, é entender o processo e se manter, no mínimo num caminho coerente com nossas verdades, isto não significa que não se possa assimilar novas idéias, novos conceitos.

Bem, todo este preâmbulo é para falar do show do Chico Anísio e seu filho. Ver o grande Chico em cena é muito bom, principalmente se prestar atenção em sua trajetória de artista. Chico Anísio, um homem multi-talentoso, um grande comediante, com centenas de personagens, alguns antológicos como: Pantaleão, Bozó, Alberto Roberto,  Coalhada, Tim Tones e o Prof. Raimundo,. Recordar do Chico escritor, compositor, cantor – Baiano e o Novos Caetanos – comentarista de futebol, ator, enfim vários em um só Chico Anísio, sem contar com aquele ser humano que através de seus programas na TV Globo resgata velhos comediantes , dando-lhes chances e dignidade.

É bom ver Chico Anísio no palco quando se sabe que ele passa por sérios problemas de  saúde e já com uma idade avançada para nossos padrões, como é bonito vê-lo acompanhado de uma nova geração de comediantes, na figura de um de seus filhos. Mas, infelizmente, é triste ver um talentoso artista se perder em obscenidades desfilando um sem número de palavrões sem nenhum traço da antiga inteligência. o forte do velho comediante.

Não que eu seja moralista tampouco defenda o moralismo tosco, até porque vejo a possibilidade da obscenidade ser filosófica, como fez o Marquês de Sade, da mesma  forma que defendo o palavrão, às vezes, para fazer a catarse e Plínio Marcos prova isso.

As obscenidades e os palavrões do tal show são gratuitos e sem propósito, provocando o riso pelo riso, não há ponto de fuga, não há preocupação em transpirar, as obscenas palavras saem aos borbotões, e de tão chulas que nem provocam a simbiose entre palco e platéia.  Há um reforço na quarta parede – a invisível – e tudo parece uma televisão ligada numa “zorra total” qualquer que nem o final “filosófico” consegue disfarçar.

Antes que você diga que eu sou um velho de  mau humor  vou lhe dizendo que ainda rio das reprises da Família Trapo, como rio muito nas velhas chanchadas dos anos 50/60, reprisadas pelo Canal Brasil , da mesma maneira que me emocionei revendo a abertura e o encerramento das Olimpíadas de Moscou, em 1980.  Continuo humano.

O que você pode dizer é que sou um velho artista que ainda acredita na arte como revitalizadora da vida, que entende que ela é um caminho para que o ser humano possa percebe-la, se não, pelo menos que ela possibilite uma reflexão sobre ela mesma.

Ainda acredito que será possível terminar a vida num palco, mas não de maneira patética e apelativa como parece que faz o outrora grande Chico Anísio.

 

Jorge Nicoli

63 anos, ator, poeta, corinthiano, avô do Gabriel e do Leonardo.




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