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Origem e Evolução do Carnaval no Vale do Contestado.

       

Fonte: site da Escola de Samba Vale Samba



            Contrariando a lógica de outras regiões do país, onde as Escolas de Samba, em geral, tiveram origem única e exclusivamente nos elementos básicos da formação da cultura negra, o Carnaval de Desfile de Escola de Samba de Joaçaba tem uma história, se não inusitada, no mínimo, diferente. A sua lógica é intrigante, e perguntas são inevitáveis. De onde surgiu essa cultura? Por quê Carnaval de Desfile de Escolas de Samba e não uma festa típica alemã ou italiana, como tantas outras existentes na região?

            As respostas apontam para fatores distintos, entre os quais destacam-se: a presença na região de vários negros, oriundos de outros estados, que vieram para esta região atraídos pela possibilidade de trabalho na construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande do Sul; fruto natural do imaginário popular, associado a um fato histórico: a Guerra do Contestado, que é rica em lendas, personagens e mitos;  esvaziamento cultural do Município, devido ao desaparecimento de importantes referências cultuais.

           Ao nos remeterem para um passado bem distante, quando o Município de Herval D`oeste era a maior referência regional, por estar sendo privilegiado pela construção de uma estrada de ferro, entre 1909 e 1912, as pesquisas sobre a origem do Carnaval de Desfile de Escolas de Samba em Joaçaba revelaram preciosos vínculos que, se  não faz o vento se igualar aos centros de excelência da cultura carnavalesca,  pelo menos o credencia de forma significativa.

            A oportunidade de trabalho, gerada pela construção da estrada de ferro, atraiu  para o Vale do Rio do Peixe trabalhadores de vários estados brasileiros, entre os quais  São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro, e muitos dos que vieram para a região acabaram ficando, e entre eles havia alguns negros que cultuavam manifestações afro-religiosas, e  tinham referências musicais de terreiros de Candomblé. Esses pioneiros, emissários dos ancestrais batuqueiros, inconscientes, e não ordenadamente, fecundaram o embrião do que seria, mais tarde, a cultura de desfile de escola de samba em Joaçaba.

             Outro fato que contribuiu para a consolidação do Carnaval de Desfile de Escola de Samba  em Joaçaba, também é histórico, e trata-se da Guerra do Contestado, ocorrida entre 1912 e 1916.  Apegando-se nas lendas criadas em torno de alguns personagens da guerra  que assustou o país no início do século, alguns artistas regionais começaram a produzir espetáculos visuais, com temas alusivos ao fato.  Esses trabalhos artísticos, apresentados inicialmente nos palcos e depois nas ruas, tinham um pouco de teatro e de carnaval, com enredo, coreografia, fantasia e evolução; e esses aspectos alegóricos  reavivavam as referências carnavalescas, mesmo que incipientes.

       Por fim, um dos fatores determinantes para o nascimento e projeção do Carnaval de Desfile de Escolas de Samba de Joaçaba, que a essa altura já era latente, foi, lamentavelmente, a morte de importantes manifestações artísticas que, até então, elevavam o Município no cenário nacional.  Depois de anos de glórias chegavam ao fim a Orquestra Sinfônica de Joaçaba, uma das mais conceituadas orquestras do Brasil, criada e regida por Alfredo Sigwal, maestro reconhecido internacionalmente, e a Companhia de Teatro Joaçaba,  que tinha  expressivos talentos, e que durante quase 20 anos representou  através da arte teatral.

        A cultura carnavalesca do Vale do Contestado, portanto, tem lógica, trajetória, e uma longa história, e já se vão mais de 70 anos do primeiro desfile de carnaval de Joaçaba, que  aconteceu,  em 1934, na Rua Getúlio Vargas, organizado pelos irmãos Lins, que na época tinham uma orquestra, e animavam bailes. 

          Faziam parte deste primeiro grupo, que contou, inclusive, com a participação do Consul Alemão Walter von Schuschnig, os carnavalescos Oscar Matte, Getúlio Lima, Egídio Breda, Ernesto Carmeli, Ernesto Caliari, Vitorino Pitt e Irineu Petri.  Muitos desses sobrenomes são de tradicionais famílias que ainda residem em Joaçaba, e algumas das quais com descendentes participando das atuais escolas de samba.  

            Já naquela época, o chamado carnaval de rua era importante regionalmente, a ponto de chamar a atenção da imprensa e, como hoje, também havia a união entre Joaçaba, que ainda era Cruzeiro, e Herval d`Oeste para promoverem o carnaval,  conforme se pode constatar  pela notícia veiculada no dia 11 de fevereiro de 1934, no jornal Cruzeiro do Sul.

          “Cruzeiro e Herval, irmanados na cordialidade existente entre ambos, darão início aos folguedos carnavalescos. Para esse fim organizaram vários blocos com as mais originais fantasias, que sairão às ruas... “

     Inspirado ainda nas antigas e tradicionais brincadeiras carnavalescas do Rio de Janeiro, o carnaval da década de 30 em Joaçaba era um misto de baile de máscaras, corso, bloco e escola de samba, e mesmo com um número reduzido de integrantes os antigos blocos já  tinham uma certa didática,  tendo, inclusive, Porta Bandeira e Baianas,  e desfilavam pelas ruas da cidade com o acompanhamento de uma orquestra .

      Dona Maria dos Prazeres, mística e misteriosa, que era dessa época,  e foi componente da Ala das Baianas da Escola Unidos do Herval,  nas poucas vezes que falou sobre carnaval deixou um legado para a história, já que ela guardava na memória fatos interessantes sobre as primeiras manifestações carnavalescas.  E dela se tem, talvez, alguns dos depoimentos mais significativos, gravados ainda em fitas na década de 80, sobre a origem da vocação carnavalesca do Vale do Contestado, colhidos em entrevistas para um programa especial  que marcava o aniversário de um ano de  inauguração da Rádio Líder do Vale, de Herval D`oeste,  fundada em 1979.

     “Entre os trabalhadores da ferrovia, tinham alguns negros que gostavam muito de batuque e candomblé, e em Herval D`oeste, pelo que sei, chegou até a ter uns terreiros...(rindo). E como essas pessoas gostavam de música,  eu acredito que elas ajudaram bastante no gosto do pessoal daqui  pelo samba e pelo carnaval”. 

      Vale observar que quando Dona Maria dos Prazeres sorri ao referir-se ao Candomblé e aos  terreiros, ela está, intimamente, expressando um certo disfarce em falar, principalmente numa gravação, sobre essas atividades. É evidente que todos a conheciam com uma Mãe- de-Santo, apesar de que isso, naquela época, não era comentado abertamente, tendo em vista que, em determinado período da história, as atividades afro-religiosas foram perseguidas, motivo pelo qual seus seguidos evitavam alardear as suas convicções e práticas.  

             O Clube Estrela, na Coxilha Seca, em Herval D`oeste, (antes conhecido como Casa Nova Era, um terreiro de Candomblé, e posteriormente conhecido como Clube dos Negros) foi um dos berços dos blocos carnavalescos e, provavelmente, o embrião do carnaval de desfile de escolas de samba de Joaçaba.  O Clube era o ponto de encontro de boêmios, músicos e sambistas, na sua maioria negros, e muitos com apurada cultura musical carnavalesca. E por muito tempo, segundo depoimento de uma antiga expectadora do carnaval,  Dona Cecilia Diesel, hoje com quase 90 anos, os brancos não eram  bem vistos no Clube dos Negros, como o local também era conhecido. Antes, porém, do carnaval em Joaçaba chegar ao estágio avançado de desfiles de escolas de samba, cujo início se deu na década de 70, predominavam os bailes de máscaras dos clubes e as apresentações nas ruas, com destaque para  bloco  Anjos de Caras Sujas, como relembra Dona Cecília. 

          “Eu me diverti muito com esses carnavais, e ainda hoje me lembro de muita coisa, e o meu envolvimento na época era como de tantas outras mocinhas, cujas famílias se reuniam para ir para os bailes de carnaval ou desfilar nos blocos que saiam nas ruas de Joaçaba e Herval D`oeste, principalmente o Anjos de Caras Sujas. Como na família tínhamos ligações com a música, então as relações dos foliões conosco eram mais próximas e freqüentes, e eu era muito atenta a tudo que acontecia, e o carnaval sempre me despertou, e até há pouco tempo atrás eu gostava de ver as escolas de samba”.

             Em Joaçaba, portanto, a origem das escolas de samba tem apenas uma tênue ligação com a cultura negra, e foram, de fato, concepções  artísticas e sociais diferentes que deram vida a essa cultura, ao contrário de outras regiões onde a população de origem negra  conseguiu amenizar as  dificuldades de organização e o preconceito social e racial que sofria, apegando-se  à criação das escolas de samba, para tê-las, talvez, como referencia social.

          Dessa forma, uma pequena cidade do interior de Santa Catarina, todos os anos faz com que suas principais ruas transformem-se em cenários de um espetáculo impressionante, motivada pelo cantar de sonhos, de fantasias e de ilusões, ao ritmo de instrumentos ancestrais, cujas origens estão no continente africano.  E, a exemplo de outras cidades, o carnaval em Joaçaba  mantém o seu rito e atrai pessoas de diferentes classes sociais, mas diferentemente, o conceito desse carnaval de rua ganhou uma nova concepção e se distanciou muito dos desorganizados desfiles de blocos, que ainda são comuns em várias cidades brasileiras.

      As escolas de samba de Joaçaba, diante das imensas e complexas possibilidades do carnaval, e  aproveitando-se do universo das relações humanas que dá vida a essa cultura, têm desenvolvido um trabalho de projeção de identidade comunitária, de ampliação e criação cultural e de ações sócio-educativas das mais expressivos. 

         As escolas de samba de Joaçaba ganharam projeção a partir dos anos 70, à reboque dos movimentos culturais que buscavam autenticidades nacionais, tão propagadas pela Ditadura Militar.  A Unidos do Herval e a Vale Samba, por exemplo, surgiram como escola de samba, ainda na década de 70, inspiradas nos foliões que, com um mínimo de organização, desde a década de 50 já animavam a região com apresentações carnavalescas, em forma de blocos.   

             Até chegar ao que é hoje, o carnaval teve fases distintas e ganhou projeção a partir do momento que Joaçaba começou a ressentir a perda de referências importantes que no passado foram opções de cultura e de lazer, como o Teatro, a Orquestra Sinfônica, o Coral, a Banda e o Futebol. Foi aí que começou uma reação que, surpreendentemente, culminou com a criação, oficial, das escolas de samba, como lembra o carnavalesco Jorge Zamoner, até então ator e diretor de teatro.  Aliás, o Grupo TEJO, dirigido por Zamoner, durante alguns anos, foi uma importante referência teatral no Estado de Santa Catarina, e representando o Município participou, inclusive, de festivais nacionais de teatro e conquistou várias premiações.

    “Eu pressenti que Joaçaba, que por muitos anos foi tida como a Capital da Cultura, estava perdendo sua essência, com o desaparecimento de segmentos expressivos. Na época, eu estava muito envolvido com o Tejo-Teatro de Joaçaba, que também perdia suas forças, a exemplo das outras entidades, por absoluta falta de uma política cultural, como acontece ainda hoje. Então, percebi que o carnaval poderia ser uma válvula de escape, e mesmo não conhecendo muito bem a cultura, entrei de cabeça e, praticamente, transformei o grupo teatral em bloco carnavalesco, e levamos para a rua, meio que sem jeito, as experiências dos palcos, e o resultado foi muito positivo, a ponto de fazermos sucesso, já no primeiro ano. Mesmo não tendo vivência de carnaval, principalmente de escola de samba, eu tinha uma boa experiência com espetáculo, já que eu dirigia um grupo com relativo sucesso.”

       Essa iniciativa, talvez, tenha sido primordial para a quebra de preconceito e o envolvimento de boa parcela da sociedade com os blocos, e, posteriormente, com as escolas de samba. Os iniciadores desse movimento eram jovens e de classe média, filhos de tradicionais famílias da cidade, como é o caso do próprio carnavalesco. E suas declarações confirmam essa tendência:

  “em pouco tempo tinha várias famílias envolvidas com o carnaval, e isso ajudou muito no começo, a ponto de, logo em seguida, criarmos, de fato, as escolas de samba. Podemos citar aqui, por exemplo, no início, o envolvimento de famílias como Zamoner, Tesser, Dall`Óglio, Dallanora, Ouriques, Link, Margarida, Daros, Silveira, Silva, Trastk, Bonato, Fuga, Zago, Fuganti, Zanardo, e posteriorente, Conte, Batista, Nodari, Pedrini e Pegoraro”.

             A fusão de dois blocos, Fino Tato e Reis do Petróleo, ainda na década de 70, com a participação de integrantes originários do teatro, nasceu a Escola de Samba Vale Samba, hoje uma das mais tradicionais do Estado de Santa Catarina.

               Diferente do que aconteceu, com certeza, com a maioria das escolas de samba do país, que foram gestadas nas periferias das cidades, principalmente nos morros, por iniciativa de pessoas da raça negra, na maioria pobre, a Vale Samba nasceu por iniciativa de um grupo formado por jovens, brancos, e de classe média.

                Os grupos idealizadores dos blocos, que originaram as escolas de samba, não tinham contatos com as áreas mais pobres da cidade ou com movimentos populares, mas tinham referência de um passado onde a cultura carnavalesca de rua teve destaque, e justamente em função de questões sociais da época. Os clubes que existiam no passado (Hervalense, Cruzeiro e 10 de Maio) eram todos tradicionais, e só eram freqüentados por sócios, o que, evidentemente, excluía uma parcela expressiva de jovens que, no carnaval, ficavam sem opções, já que não podiam participar dos bailes carnavalescos. Os blocos carnavalescos, formados por sócios, tinham acesso aos bailes; os outros ficavam pelas ruas mesmo, e assim foi surgindo a tradição e com isso nasceram os blocos do passado, nos quais  se inspiraram os blocos mais recentes e destes nasceram as escolas de samba.

                 Uma declaração do senhor Horivil Zago,  falecido em 2008, ex-Cônsul Honorário da Itália e empresário tradicional de Joaçaba, e que por muitos anos foi presidente do Clube Cruzeiro, ilustra bem o que aconteceu no passado com relação aos blocos:

                “Olha, não só no nosso clube, o Cruzeiro, como os demais, o 10 de Maio e o Hervalense, em Herval D´oeste, só entravam sócios, mesmo no carnaval. Então, tinham vários blocos, que eram formados por sócios, que animavam os bailes, e tinham outros tantos que, não podendo freqüentar os clubes, ficavam por aí nas ruas, e isso acabou criando uma tradição. E olhe que eu estou falando de muitos anos atrás, viu, e aí depois os filhos ou netos desses integrantes dos blocos antigos, mesmo freqüentadores dos clubes sociais, juntaram-se a outros jovens e continuaram esse movimento de blocos pelas ruas, o que acabou culminando, acredito, com o surgimento das escolas de samba”. 

                   O “Seu Zago”, como era conhecido, foi um dos primeiros colaboradores da Vale Samba, cedendo espaço em suas empresas para que a escola pudesse usar como barracões. A sua esposa, Dona Olívia Zago, também já falecida, desfilou muitos anos como destaque, e estava sempre disponível para colaborar com o carnaval.

                    O irmão do “seu Zago”, João Carlos, também falecido recentemente, que era o responsável pela oficina da Concessionária Chevrolet, e que foi outro grande colaborador da escola, era um cumpridor fiel das ordens do chefe-irmão, e que mantinha os mecânicos da oficina sempre na linha, um dia disse ao carnavalesco Jorge Zamoner:

                    “Jorge, o “Seu Zago”, que sempre vem aqui embaixo dar uma olhada nos trabalhos do carnaval, está um pouco preocupado, e eu confesso que eu também, porque essa sua gente aí não está pegando muito firme não, viu. Eu acho que você tem de chamar a atenção deles, porque eu tô vendo que o dia do carnaval tá chegando, e tem muita coisa ainda pra ser feita e desse jeito não vai dar”.

                      O Jorge, como sempre tranqüilo, e mais ou menos com tudo sobre controle, com relação a tempo e término dos trabalhos de alegorias, respondeu, rindo, ao João Carlos:

                       “João, não se preocupe, no carnaval é assim mesmo. Esse “meu” pessoal aí, é tudo gente da escola, que não está ganhando nada para trabalhar, e se eu ainda exigir mais do que isso, amanhã o senhor não vai encontrar ninguém aqui”.

             Muita gente, até na própria escola, não sabia, mas o “seu Zago” era um excelente músico, e durante muitos anos, quando era jovem, tocou cavaquinho em um conjunto musical, o que, talvez, explicaria a sua afinidade, mesmo que indireta, com o carnaval e com escola de samba. Além de “cavaquinista” ele também era um exímio “sanfoneiro”, como ele mesmo dizia, acrescentando que “até uns tempos antes da minha esposa falecer eu em casa ainda tocava minha sanfona”.

            O apoio do Prefeito Evandro Magalhães de Freitas, foi decisivo para a consolidação das futuras escolas de samba, entre elas a Vale Samba, já que ele, desde o início da criação dos blocos, demonstrou interesse e procurou incentivá-los, patrocinando os troféus para os vencedores.

               Depois de muitas “reuniões” no “bar do Lélio”, na XV de Novembro, os carnavalescos Nildo Ouriques, Ricardo Freitas, João Silva, Ducho Mendonça, Tonho Batista, Leandro Dallanora, Renê de Oliveira, Márcio Fuga e Ike Batista iniciaram o movimento dos blocos, e a partir dali uma comissão foi até o gabinete do Prefeito pedir apoio, que veio mais tarde, após uma roda de samba em sua casa, e do envolvimento da Rádio Líder, sob o comando dos radialistas João Paulo Dantas e Carlos Henrique Roncáglio. 

                  Após assegurarem os troféus para os vencedores, e a promessa do Prefeito de que qualquer outro apoio necessário que estivesse ao alcance da Prefeitura estaria à disposição do evento, a carnaval decolou, como relembra João Silva Filho, um dos primeiros presidentes da Vale Samba.

                  “Ai falamos com os irmãos Silveira; com o Marquinhos, e com o Carneiro, e também o Treze, e eles fundaram o Eskinão; e nós, criamos Os Reis do Petróleo; e o Jorge criou o Fino Tato. E o sucesso do desfile no sábado foi tão grande que na segunda-feira, como o Prefeito Evandro era muito dinâmico, já tinha até palanque oficial para as autoridades, e ai estava como nós queríamos e, não demorou muito para que nós pudéssemos convencer o Jorge Zamoner a montar uma escola de samba de verdade, já que, àquela altura, ele era o mais qualificado, pois dirigia teatro, e ai nasceu a Vale Samba, que hoje é uma das grandes do nosso Estado”.           

            A origem do Grêmio Recreativo Esportivo e Cultural Escola de Samba Unidos do Herval remonta aos anos 60, quando um grupo de casais decidiu se reunir em todos os carnavais para desfilar, em forma de bloco carnavalesco com o nome de Que Murmurem, nas ruas de Herval D`oeste e Joaçaba, e também nos clubes Hervalense, 10 de Maio e Cruzeiro. Nos anos 70, parte dos integrantes do bloco Que Murmurem uniram-se para criar a Escola de Samba Unidos do Herval que, entretanto, oficialmente, só passou a existir a partir de 1981, data da sua fundação, após ter desfilado com sucesso com o enredo A Locomotiva, com o qual conquistou o título de campeã do carnaval de Joaçaba e Herval D`oeste.   Dois anos depois, e ainda embalada pela alegria do titulo conquistado, a Unidos do Herval, com grande empolgação apresentou o enredo Tribuno à Maria dos Prazeres, uma homenagem à praticante do candomblé e Porta-Bandeira e integrante da Ala das Baianas, falecida após a conquista do título pela  escola.  Esse enredo da Unidos do Herval, aliás, criou uma situação inusitada e folclórica até, já que era exigência da Diretoria que todos desfilassem de calçados brancos, uma reverência aos costumes das manifestações dos terreiros, dos quais a homenageada era assídua freqüentadora. Nem todos, porém, tinham condições de comprar um calçado branco, quando então alguém teve uma brilhante idéia: furtar uma fábrica de calçados, o que, de fato, aconteceu. Como o furto foi descoberto antes do desfile, houve uma “negociação” entre o Presidente da Escola, Carlos Tratsk e o diretor da empresa, e foi possível os componentes continuarem com os calçados, e no dia do desfile mais de 200 componentes da escola sambavam na Avenida calçando botinas brancas, novinhas.

      É evidente que os donos não tiveram muito trabalho para descobrir, se não a autoria, mas, pelo menos, os produtos do carnavalesco furto, e para evitar constrangimentos e queixa policial,  o Presidente da Escola, Carlos Tratsk sentiu-se obrigado a assumir parte da culpa, segundo ele próprio.

   “Era determinação minha que só desfilaria quem tivesse calçado branco, e como muitos integrantes não tinham condições  de compra-los, acabaram  pintando os sapatos velhos, e outros...(rindo)  optaram por furtar 200 bonitas. Descoberto o furto, eu, humildemente,  sentindo que tinha uma parcela de culpa no episódio, já que havia  feito tal exigência, fui falar com o diretor da empresa que, por fim, graças a Deus, entendeu a situação, e tudo terminou bem, sem queixa na polícia”.

     Sempre atrelada às atividades carnavalescas de Joaçaba, a Unidos do Herval, a exemplo das escolas de samba joaçabenses, teve também a mesma trajetória, de altos e baixos, mas desde os anos 90 firmou-se como agremiação indispensável no Carnaval de Desfile de Escolas de Samba de Joaçaba.

      Dois personagens políticos foram fundamentais para a consolidação do carnaval de Joaçaba: Evandro de Freitas e Armindo HaroNeto, já que suas iniciativas e apoio resultaram no nascimento e ressurgimento das escolas de samba, em períodos distintos. O primeiro deles foi o Prefeito Evandro de Freitas, que, em 1977, teve a iniciativa de motivar o desfile de blocos carnavalescos com a destinação de uma premiação para os melhores classificados, atendendo a uma reivindicação de um grupo de jovens, liderados pelo sambista João Silva Filho, que já era um entusiasta do samba e do carnaval.

     “Eu, o Ducho Mendonça e o Ricardo Freitas, após uma reunião preliminar com o Nildo Ouriques, o Henrique Batista, o Leandro Dallanora, e o René de Oliveira Rosa, fomos até o gabinete do Prefeito Evandro Freitas, solicitar apoio para realizarmos um desfile de blocos. Fomos  bem recebidos, mas saímos de lá sem uma resposta positiva. Alguns dias depois, porém, após promovermos uma roda de samba na casa do Ricardo Freitas, que era filho do Evandro,  o Prefeito se comprometeu que garantiria os troféus para os vencedores. E assim, com grande sucesso,  aconteceu o primeiro desfile dos Blocos Esquinão, Fino Trato e Os Reis do Petróleo, embrionários das atuais escolas de samba”  

        Na Administração do Prefeito Normélio Zílio, por total falta de apoio, e também em função das enchentes que por dois anos consecutivos atingiram o Estado de Santa Catarina, às escolas de samba suspenderam suas atividades carnavalescas e só retornaram 6 anos depois, por insistência e trabalho de Armindo Haro Neto, hoje Prefeito de Joaçaba.

       Aliás, para infelicidade das escolas de samba, Normélio Zílio foi Prefeito por 10 anos, já que o seu primeiro mandato foi prorrogado por dois anos. E se a sua primeira Administração foi responsável pelo desaparecimento das escolas de samba, a segunda ficou marcada pela negligência em repasses financeiros para a manutenção do carnaval, e ao final do seu mandato o Prefeito ainda ficou em débito até com as premiações das escolas.

          Outra fase importante para o carnaval de Joaçaba aconteceu na década de 90, com a eleição de Afonso Dresch e Armindo Haro Neto, já que estes assumiram com a comunidade a  responsabilidade de fazer retornar o carnaval, e com ele o ressurgimento das escolas de samba. Armindo Haro Neto, que tinha fortes ligações com as comunidades de bairros,  motivou as lideranças das comunidades a organizarem várias pequenas escolas, inspirando-se numa gincana interbairros que já era tradicional, e  o sucesso dos desfiles das escolas de bairro foi tanto que propiciou o retorno de antigas e o surgimento de novas escolas de samba.

         Hoje, como Prefeito de Joaçaba, Armindo Haro Neto, através da Administração Municipal, tem dado relevantes contribuições para as escolas de samba, viabilizando recursos financeiros do Município e Estaduais, mas ele acredita que o seu papel mais importante foi, de fato, a atuação que teve para o retorno do Carnaval de Desfile de Escola de Samba.

      “Eu me orgulho de ter contribuído para que essa cultura, já enraizada em Joaçaba, pudesse evoluir, como acontece hoje.  Quando em 1992, eu, o Nelson Paulo, o Bruno Arenhart,  e o João Paulo resolvemos transformar uma gincana interbairros, feita em parceria com a Rádio Catarinense, em desfile carnavalesco tivemos algumas reações contrárias. Mas, a iniciativa foi vitoriosa e 10 pequenas escolas, de 9 bairros  de Joaçaba, e um de Herval D`oeste, foram para a Avenida, e o espetáculo foi sucesso absoluto, a ponto de, no ano seguinte, já surgirem três escolas: a Vale Samba, a Unidos do Vale e a Unidos do Herval.  Depois disso, e com a criação da Liga Independente das Escolas de Samba, a evolução foi rápida e o crescimento do carnaval surpreendeu  a todos, obrigando a prefeitura e os organizadores a reverem as estruturas, para melhor adequar o evento e proporcionar ao público as condições básicas para assistir aos desfiles”.

        Com a reativação do carnaval, renasciam a as escolas de samba Unidos do Herval, sob a liderança de Carlos Trakst,  e a Vale Samba,  sob a liderança de Jorge Zamoner; e da união de vários bairros, originários da Floresul e depois Unidos do Vale,   surgiu uma nova escola: a Aliança, sob a liderança de Heleonor Heberle.  A  Escola Esquinão, que foi importante na primeira fase dos  desfiles carnavalescos de Joaçaba, não teve mais fôlego para retornar  e deixou uma lacuna, já que ela, mesmo em um curto espaço de sobrevivência, criou  expressivos referenciais artísticas, sob a liderança do empresário Ariton Daros e da artista plástica Jussara Duarte.

      Mesmo não estando ainda plenamente consolidadas, as escolas de samba de Joaçaba  hoje já têm status de entidades sociais e culturais expressivas, mas para chegar até essa condição,  alguns altos e baixos foram inevitáveis. Durante muito tempo as escolas de samba ficaram a mercê do poder público, ou mais precisamente da vontade pessoal do Prefeito, e se esse não tinha muita afinidade com carnaval, o evento acabava ficando em plano secundário, e isso  motivou, inclusive,  em determinadas épocas, a desativação das escolas de samba.

             O surgimento da Escola Aliança (antiga  Floresul, depois Unidos do Vale), e a retomada das atividades da Vale Samba e da Unidos do Herval,  e mesmo com a ausência da Esquinão,  deu nova motivação para o carnaval, e a nova escola fez com que a disputa fosse mais acirrada, e desde o início se configurou uma rivalidade direta da Aliança com a Vale Samba.   Helonor Heberle, a carnavalesca Lola da Aliança, foi uma das pioneiras da escola, que nasceu da associação de integrantes de vários bairros, que participavam de uma gincana interbairros, e também do carnaval como blocos carnavalescos.

         “Depois de sairmos como bloco, no ano seguinte, por insistência do Armindo, fizemos a união de 5 bairros e fomos para a Avenida. Perdemos o carnaval por uma diferença expressiva, mas, mesmo assim, comemoramos o nosso sucesso, e eu disse que a nossa escola de samba seria a maior que Joaçaba já teve. Depois disso, tive  um encontro com o empresário Carlos Fett, que nos garantiu apoio, e ai  eu tive a certeza de que a nova escola seria uma realidade, e assim, em Outubro de 1994, nasceu a Aliança, que hoje é, sem dúvida, uma das grandes escolas de samba de Santa Catarina”.

              O empresário Carlos Fett, aliás, até hoje é um dos maiores entusiastas da Escola Aliança, e juntamente com a irmã Izabel Fett e o irmão Luiz Fett,  e, conseqüentemente, o Moinho Specht, de propriedade da família, têm sido um dos grandes responsáveis pelo sucesso do carnaval de Joaçaba. 

           “ Sempre gostei de trabalhos manuais, e sempre fui fanático por samba, principalmente samba enredo. Em 94 fui convidado pela Lola e pela Sueli Frank para se juntar a elas numa escola de samba. Eu já havia desfila várias vezes em Florianópolis, e assistia também aos desfiles na Sapucaí, no Rio de Janeiro. Ao integrar-me à escola aqui, sugeri fazermos uma homenagem a artista plástica joaçabense, Jussara Duarte no nosso primeiro enredo, e na mesma reunião decidimos que as cores oficiais seriam verde e branco, e a pomba seria o símbolo. A partir de então, como disse a minha amiga carnavalesca e comentarista da Globo, Maria Augusta Rodrigues, fui picado pela mosca azul do carnaval”.

        A história da Escola de Samba Aliança começou em 1993, quando a Administração Municipal de Joaçaba convidou os presidentes das Associações de Bairros para apresentar a proposta de se criar pequenas escolas de samba para apresentarem-se no carnaval. Dessa reunião saiu a nomeação de uma Comissão Organizadora, e começaram os contatos, que no Bairro Flor da Serra foram intensos, principalmente juntos aos jovens. Com muita empolgação e interesse, mas sem recursos financeiro e curto espaço de tempo para  organizar tudo, a saída do grupo foi procurar parceria com outros bairros, como o Cruzeiro do Sul, tendo como experiência a participação de muitos integrantes em gincanas e em antigos blocos carnavalescos. Formada a parceria foi escolho como enredo O Verde Vale da Alegria, que tratava do heroísmo dos desbravadores da região, destacando-se os colonizadores, a estrada de ferro, o desenvolvimento e, também, o próprio carnaval, com as fantasias sendo confeccionadas com tecidos usados, papelão, painas e purpurinas, com ênfase para as cores azul e amarelo, representando os bairros Cruzeiro do Sul e Flor da Serra.

     Mesmo com as enormes dificuldades, a então Unidos do Floresul conquistou o titulo em 1993 e a repercussão foi das melhores e, apesar do grande desgaste que chegou até desencorajar muita gente, no ano seguinte, com a adesão de novos bairros a Escola Floresul passou a chamar-se Unidos do Vale e o enredo escolhido foi  No Reino da Fantasia, uma sátira aos acontecimentos políticos.  Mesmo não ganhando o titulo, a escola, em 1994, fez muito sucesso outra vez, e naquele mesmo nasceu o Grêmio Recreativo Escola de Samba Aliança, uma homenagem aos diversos bairros que se uniram para fazer a história da escola, agora nas cores verde e branco,  resultado natural da fusão do amarelo com o azul, acrescido do branco, a cor predominante dos bairros que integravam a Unidos do Vale.

            A rápida organização e evolução das escolas de samba, obrigaram aos dirigentes do carnaval de Joaçaba a repensarem a sua organização, e  foram várias as iniciativas positivas até se chegar a consolidação da criação da Liga Independente das Escolas de Samba, em 1996.  Desde então, os desfiles das escolas de samba, e todas as atividades alusivas ao carnaval, que eram de responsabilidade de uma Comissão Organizadora, nomeada pelo Prefeito Municipal, passaram a ser conduzidas pela Liga das Escolas, restando ao Poder Público o apoio  político e logístico do evento.

     A idéia de criação da Liga era  seguir o exemplo do Rio de Janeiro, que já em 1984, sob a liderança de Luizinho Drumond, da Imperatriz Leopoldinense e de Aniz Abrahão, da Beija Flor, concebeu a Liga Independente das Escolas de Samba, formada pelas principais agremiações carioca.

     Em Joaçaba, na liderança do processo de criação da Liga Independente das Escolas de Samba, estavam o Vice-Prefeito Armindo Haro Neto, o Secretário de Educação do Município Darcy Laske, o Presidente da Escola de Samba Aliança, Cezar Junqueira, o Presidente da Escola de Samba Vale Samba, Osvaldo Colombo, o Presidente da Escola de Samba Unidos do Herval, Ricardo Nodari e o Diretor Técnico dos Desfiles, Ademar Bittencourt.

    Com a criação da LIESJHO, os desfiles das escolas de samba passaram para um outro nível e diversas foram as mudanças e as conquistas do carnaval, o que conseqüentemente deram maior visibilidade ao espetáculo. As agremiações passaram a receber verbas de projetos culturais, de participação na venda de ingressos, e nos direitos de merchandising da Avenida; e os aspectos técnicos e organizacionais surpreenderam até mesmo os mais experientes carnavalescos do Brasil, como o Dr. Hiran Araújo, Diretor  de Cultura da LIESA, do Rio de Janeiro.

    É muito gratificante saber que numa pequena cidade do interior, no Sul do Brasil, se tenha um carnaval desse nível. É até surpreendente”. 

      A observação é do Dr. Hiran Araújo, uma das maiores autoridades de carnaval do mundo,  e autor do livro Carnaval Seis Milênios de Historia, em entrevista concedida à imprensa quando esteve em Joaçaba,  a convite da Liga Independente das Escolas de Samba.

    O primeiro passo da Liga Independente das Escolas de Samba de Joaçaba e Herval D`oeste foi promover um Seminário sobre Carnaval de Desfile de Escola de Samba, e para tanto o então Secretário de Educação do Município, Darcy Lask viabilizou um convênio com a UER-Universidade Estadual do Rio de Janeiro, e esta com a RIOTUR e a LIESA para que fosse possível a vinda a Joaçaba de renomados profissionais do mundo do carnaval,  para que estes pudessem contribuir com suas experiências para a elevação do nível dos desfiles carnavalescos promovidos pelas escolas.  Desse convênio resultaram Seminários sobre Atividades Carnavalescas, e a vinda para Joaçaba, por alguns anos consecutivos, de uma Comissão Julgadora do Rio de Janeiro, formada por experientes profissionais.

             Aliás, o quesito julgamento, desde o início dos desfiles das escolas de samba, sempre foi uma das grandes preocupações dos organizadores do carnaval, e um dos que ainda hoje é responsável pela maior polêmica entre as escolas, a exemplo também do que acontece no Rio de Janeiro.  Por conta disso, constantemente a Liga tem optado por trocar a origem dos jurados, e depois de alguns anos de seqüência de corpo de jurados vindo do Rio de Janeiro, optou-se por jurados de outras regiões, mas, pela dificuldade de se encontrar pessoas habilitadas a julgarem os quesitos, a tendência é o retorno da vinda de profissionais cariocas, indicados pela Liesa.

         A Liesjho-Liga Independente das Escolas de Samba de Joaçaba e Herval D`Oeste foi fundada no dia 4 de junho de 1996.

      O crescimento e a projeção do carnaval, a partir da década de 90, com a  reordenação dos segmentos que resultaram na composição das novas escolas de samba, proporcionaram uma aproximação maior das classes médias com o carnaval e motivaram a participação de muitas famílias. Paralelamente surgiram, mais caracterizadas, figuras específicas, algumas polêmicas, até, como o Carnavalesco, o Mestre de Bateria, o Compositor e o Puxador de Samba, e no interior das escolas, consolidaram-se as relações de trocas entre os diversos setores, e esses, por sua vez, buscaram novos conceitos de relações.  Parceiros externos passaram a contribuir com algumas propostas estético-visuais, e com aportes financeiros, adquirindo fantasias que requerem maior poder econômico; cabendo, portanto, às classes populares, mais da periferia, os afazeres afins do dia-a-dia nos barracões e nas quadras das escolas de samba. 

 


 


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