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Revivendo antigos carnavais

          

 

Por Leyla Alves Lopes de Melo

 

 

Em nossa cidade, no final dos anos 40 e durante os anos 50, do século passado, a festividade do carnaval era muito espontânea e descontraída. Todo o movimento se concentrava na nossa praça principal, e não se armavam arquibancadas na Avenida Alberto Braune. As gambiarras eram os únicos ornamentos de nossos logradouros públicos, que melhoravam a iluminação do centro. As escolas de samba, na época, eram duas: Unidos da Saudade e Alunos do Samba. Esta última era, também, chamada de escola do Fluminense, pois se organizava no clube de futebol existente ao lado da Capela de Santo Antônio, no Suspiro, o Fluminense.

 

As escolas tinham poucos componentes, que cabiam dentro de uma corda de isolamento, segura por simpatizantes das respectivas agremiações. Não havia samba enredo. As escolas entoavam sambas ou marchinhas compostos, especialmente, para o tríduo de Momo, sucessos dos cantores da “era do rádio”. Na maior parte do tempo, davam preferência ao seu próprio samba, como se fosse um hino nacional.

 

Os primeiros versos da azul e branco diziam:

 

“Hoje, ela é feliz,

mas você não é,

porque você não quis”.

Os últimos da roxo e branco eram:

“Saudade mora no meu coração,

mas não me quiseram me dar

um minuto de atenção.

Eu vou partir...”

 

Figura de respeito da escola do Bairro Ypu (Unidos da Saudade) era dona Maria, uma senhora que se vestia toda de branco, contrastando com o negrume de sua pele. Na  cabeça, um turbante. O vestido justo realçava a exuberância de suas formas, e sobre ele, a tiracolo, a faixa de ‘diretora”. Calçando sapatos muitos altos, se locomovia de um lado para o outro, com extremo desembaraço, deixando transparecer a sua competência e  autoridade. Alguns anos depois, surgia a “Escola de Samba Unidos Verdejantes”, com muito sucesso, organizada pelo “Esperança Futebol Clube”, mas que teria  pouco tempo de duração.

 

Já o “Bloco do Boi” despertava o interesse da garotada que, ao mesmo tempo se assustava com as suas evoluções. Quando terminava o baile infantil do Clube de Xadrez, o “Bloco do Boi”, que vinha da Vila Amélia, passava diante do citado clube, pela Avenida Rui Barbosa (atual Galdino do Vale Filho).

 

Havia o “Bloco dos Bichos” que, também, tinha a figura do boi  vindo do bairro de Olaria  assim como os ranchos “Estrela do Serrano” e, mais tarde, (Flor do Sertão). Com entusiasmo e alegria, desfilava o bloco “Quem é bom não se mistura” cujo o nome mais parecia um provérbio popular. Ao passar das 22H30  as ruas iam ficando desertas, pois era chegado o momento de ter início os bailes nos clubes da cidade: Sociedade Esportiva Friburguense e Clube de Xadrez. Este último era considerado o melhor baile carnavalesco do Estado do Rio tendo a preferência dos turistas de Niterói e do Rio de Janeiro.

Era, realmente, sensacional.

 

As bandas Euterpe e Campesina realizavam  bailes em suas sedes sociais assim como o Hotel Engert (esquina de Alberto Braune com Augusto Cardoso) que os promovia para seus hóspedes e convidados. A gurizada contava com duas matinês.

 

Durante todo o dia  pelas ruas era um  movimento constante de crianças fantasiadas, mascarados,  bloquinhos de embalo destaque para o Bloco do Rascunho  e as inesquecíveis figuras de Lulu Carne Seca e Picolino. Conseguir lugar num dos bancos de nossa praça principal era uma proeza.

 

            Os libaneses Tuffy Fadel e Teófilo Zarife disputavam a preferência do público na venda de confetes, serpentinas e lança  perfumes Colombina e Rhodo Metálico. O primeiro era proprietário da Luva Branca e o segundo, pai de Gilberto, Oswaldo e Édmo Zarife da casa O Dragão. Tarefa difícil era adquirir um sorvete, refrigerante ou salgadinho na Única da família Ruiz,  Lux  ou no Atlantic (atual Majórica) sempre repletos de fregueses.

 

Ao meio dia da quarta feira de cinzas muitas pessoas se aglomeravam na calçada da delegacia de policia na Avenida Comte Bittencourt (hoje Edifício Itália) para ver a saída dos que haviam sido presos durante o período carnavalesco. A este grupo que ganhava a liberdade no primeiro dia da quaresma  o povo dava o apelido de bloco de  O que eu vou dizer lá em casa?

 

Para terminar à noite  saia o enterro do carnaval com caixão e as figuras da viúva, do padre e do sacristão. O cortejo percorria as principais ruas  à luz de archotes cantando as músicas carnavalescas com ritmo lento e fúnebre. Ao retornar ao bairro Ypu  o caixão era incendiado provocando muitos estampidos pois o mesmo estava repleto de bombinhas e pequenos fogos de artifício. Estava encerrado mais um carnaval só restando esperar pelo próximo.

 

 

 

 

 


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