O que aconteceu com o Carnaval na década de 1980?
Fonte: Revista Taubaté - 23 de fevereiro de 2007
“Estamos em busca da profissionalização do Carnaval de Taubaté que vem crescendo a cada ano desde o início da gestão Roberto Peixoto, que está interessado em consolidar esta importante festa na cidade de Taubaté.”
A afirmação foi feita pelo coordenador da Comissão do Carnaval 2007, professor Aloizio Rodrigues da Silva, por meio de notícia expedida pela assessoria de comunicação da Prefeitura Municipal. A frase do economista e professor chamou a atenção da redação, porquanto há mais de 20 anos se fala na “morte” do carnaval de Taubaté.
Na época, Aloizio Rodrigues era diretor do Departamento de Finanças, e não tinha ligação direta com o carnaval, mas no exercício do cargo deparou com gastos excessivos, herdados da administração anterior, e a partir de então o prefeito José Bernardo Ortiz (1983-88) iniciou um processo em sua gestão para diminuir os gastos, e o carnaval também sofreu as “conseqüências” dos seus atos, pois ele entendia que a cidade precisa de obras de infra-estrutura e o poder público deveria proporcionar uma melhor qualidade de vida para a população. Foram “penalizados” o carnaval, o E. C. Taubaté, entidades assistenciais etc.
A posse dos novos mandatários do poder político ocorreu no dia 1º de fevereiro de 1983, a 15 dias do desfile de carnaval. Segundo Aloizio, em entrevista exclusiva ao site no dia 26 de janeiro de 2007, a festa momesca foi preparada pelo governo anterior, mas após os desfiles na avenida 9 de Julho (as arquibancadas eram instaladas em frente à Praça Dr. Barbosa de Oliveira) começaram a aparecer as contas para pagar.
Raul Soares, o “Raul do Bar da Madeira”, então presidente da Comissão de Carnaval, teria se hospedado em alto de luxo na Praia da boa Viagem, no Recife-PE durante uma semana, indo para a cidade turística com a finalidade de contratar jurados para julgar a apresentação das escolas de samba; há uma semana do carnaval, os jurados pernambucanos vieram para Taubaté e também se hospedaram no melhor hotel da cidade, o Gávea (avenida Juscelino Kubitschek de Oliveira); a rainha, as princesas e o rei Momo de Taubaté circularam pelos clubes da cidade, comendo e bebendo do bom e do melhor, tudo por conta do erário público. Todas essas denúncias foram feitas pelo ex-assessor financeiro da Prefeitura.
As contas foram pagas, mas o prefeito decidiu que as escolas de samba teriam que, a partir daquele ano, trabalhar o ano inteiro e a verba seria um complemento para custear as despesas nada módicas de uma agremiação carnavalesca.
Ortiz entendia que as agremiações de carnaval deveriam trabalhar como se fosse uma empresa. Resultado, na avaliação de Aloizio: as escolas não trabalharam, a verba pública diminuiu, e o que se viu de lá para cá foram tentativas de voltar ao nível do “velho” carnaval taubateano, especialmente no período da administração do prefeito Waldomiro Carvalho, para muitos o auge do período de Momo.
A decisão de Ortiz de cortar (ou diminuir) a verba não agradou às escolas e muito menos à Associação das Escolas de Samba e Agremiações Carnavalescas de Taubaté, presidida pelo advogado Orlando Prado Junior, que recebeu carta do prefeito cobrando uma definição se haveria ou não desfile em 1984, adiantando que a verba seria de 4,5 milhões de cruzeiros (dinheiro da época), montante insuficiente para promover colocar as escolas na avenida, segundo os dirigentes.
Também as escolas de samba seriam beneficiadas com a venda dos ingressos para a arquibancada, que seria montada na avenida 9 de Julho, centro. O jornal Gazeta de Taubaté (antecessor do Jornal da Cidade), em matéria veiculada na edição de 15 de dezembro de 1984, interpretava o sentimento na época: “O ambiente entre os carnavalescos era de desânimo. Depois do rebaixamento do E. C. Taubaté, que teve cortada a sua verba de subvenção, a cidade está ameaçada de ficar sem carnaval em fevereiro. Em caso negativo, pouparemos despesas e trabalho”.
Taubaté contava com 11 escolas de samba. Se não fossem desfilar, o prefeito ameaçava promover um “carnaval alternativo”. O impasse começou no dia 12 julho, quando foi baixada uma portaria do Executivo diminuindo em 2.000 o número de lugares nas arquibancadas, transferir para as escolas a contratação dos jurados, pagamento da rainha e do rei Momo, “além de deixar para as agremiações a responsabilidade da venda dos ingressos, tudo isso em troca de 450 mil cruzeiros” (Gazeta de Taubaté, 19/1/1985).
O jornal Gazeta de Taubaté publicou, no dia 16 de fevereiro de 1985, nota de falecimento enviada pela entidade das escolas de samba, com o seguinte teor:
“A Associação das Escolas de Samba e Agremiações Carnavalescas de Taubaté, desolada, participa o falecimento do Carnaval 85 de Taubaté, vítima de ação do prefeito José Bernardo Ortiz e do ex-carnavalesco Adherbal de Moura Bastos. O extinto deixa como filhas legítimas sete escolas de samba, que, no entanto, não participarão dos funerais. Conviveu muito tempo com o Rei Momo e rainha. No tempo em que com estes ainda existiam. O corpo está sendo velado pelas escolas de samba Boêmios da Estiva, Estrela do Morro, Jardim Baroneza e União da Juventude e o enterro sairá amanhã às 20h da avenida Nove de Julho em direção ao Parque Dr. Barbosa de Oliveira. Os sambistas de Taubaté pedem que não mandem flores, porém rezem pelo milagre da ressurreição em 1986”.
A nota foi publicada anteriormente, em forma de anúncio, no caderno regional Folha Vale do jornal Folha de S.Paulo.
Carnavalescos desanimados
A abertura do carnaval de Taubaté foi no dia 3 de março de 1985, com a apresentação do 2° grupo, comparecendo na avenida John Kennedy cerca de 10 mil pessoas. As escolas de samba do 1° grupo se apresentaram no dia seguinte. A campeã do Carnaval 84 foi a Escola de Samba Democrata Unidos do Bairro Independência, e no 2° grupo a Mocidade Unida.
De acordo com o jornal Gazeta de Taubaté de 15 de dezembro de 1984, o então prefeito José Bernardo Ortiz não gostava de carnaval. Em carta encaminhada ao presidente da Associação de Escolas de Samba, o prefeito Ortiz cobrava uma resposta dos dirigentes das escolas de samba se haveria ou não carnaval no ano seguinte e anunciou que a verba destinada aos grupos carnavalescos seria de 4,5 milhões de cruzeiros. “Como existem 11 agremiações carnavalescas haverá repasse de apenas 400 e poucos mil cruzeiros para cada escola. Justificam os carnavalescos que com essa subvenção não haverá condições para custear sequer uma fantasia de destaque.” (Jornal Gazeta de Taubaté 15/12/1984).
Nesta mesma edição, o jornal Gazeta de Taubaté diz que a Prefeitura argumentou, ainda por meio da carta, de que seriam arrecadados mais 12 milhões de cruzeiros com a venda de cerca de quatro mil ingressos das arquibancadas que seriam montadas na avenida John Kennedy, onde aconteceria o desfile. No entanto, para os carnavalescos, essa verba extra não ajudaria muito.
“O ambiente entre os carnavalescos era de desânimo. Depois do rebaixamento do E. C. Taubaté, que teve cortada a sua verba de subvenção, a cidade está ameaçada de ficar sem carnaval em fevereiro. Em caso negativo, pouparemos despesas e trabalho”, dizia trecho da matéria do jornal Gazeta de Taubaté (15/12/1984).
Os dirigentes das escolas de samba tentaram conversar com o prefeito, mas ele não os recebeu. Em ofício, Bernardo Ortiz propôs “carnaval alternativo”, caso as escolas não respondessem se iam desfilar aceitando a verba proposta ou não.
“O impasse do carnaval de rua de Taubaté se iniciou em 12 de julho do ano anterior, quando o prefeito [José Bernardo Ortiz] baixou portaria cortando 2.000 lugares nas arquibancadas e passou para as escolas as responsabilidades de contratação e pagamento de jurados, rei momo e rainha do carnaval, além de deixar para as agremiações a responsabilidade da venda dos ingressos, tudo isso em troca de 450 mil cruzeiros.” (Gazeta de Taubaté, 19/01/1985).
Apesar da falta de apoio oficial, o carnaval de 85 foi realizado na avenida 9 de Julho, “sem arquibancada, sem decoração e com pouca iluminação”, segundo a Gazeta. Cada escola desfilou durante 50 minutos. A comissão julgadora foi presidida pelo engenheiro Sebastião Melin Aburjeli e foram julgados nove quesitos: bateria, harmonia, samba enredo, evolução, fantasia, enredo, mestre-sala e porta-bandeira, alegoria e adereços e comissão de frente.
A vencedora foi a Escola de Samba Estrela do Morro, com 89 pontos, que empatou com a Boêmios da Estiva, mas devido a um ponto conseguido a mais no quesito bateria, recebeu o 1° lugar.
A Escola de Samba Jardim Baroneza ficou em 3° lugar e a União da Juventude da Vila Aparecida ficou em 4° lugar, cada uma com 76 pontos.
Em 1985, o carnaval foi comemorado mais nos clubes do que na rua. Clubes como Taubaté Country Clube, Associação dos Empregados no Comércio, Ceteiense e E. C. Taubaté prepararam os tradicionais bailes de carnaval.
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