Guará: Falece Carlucho, fundador da 1ª Banda Mole do Brasil

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Guará: Falece Carlucho, fundador da 1ª Banda Mole do Brasil

Faleceu nesta segunda-feira (12/11) aos 76 anos o dentista Carlos Alberto Jambeiro da Rocha, carinhosamente conhecido como “Carlucho”, um dos fundadores da Banda Mole de Guaratinguetá, da qual ficou a frente desde a sua 1ª edição em 1975.

Vai deixar saudades.

Carlucho acompanhando a “Seresta da Banda Mole” no bairro de São Benedito – 14/01/2012

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Reveja o desfile 2012 da Banda Mole de Guaratinguetá

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Leia a entrevista com o Carlucho publicada originalmente para a 1ª edição do jornal Abre-Alas, lançado em out/2005.

 

Um homem chamado Carnaval

 Por Mário Luiz dos Santos

Carlos Alberto Jambeiro da Rocha, 69 anos, dentista. Ou simplesmente “Carlucho”, 65 anos de carnaval, dos quais 31 dedicados à Banda Mole. Não importa. O importante é saber que quando se fala de carnaval as duas personalidades se unem formando uma só. E tudo isso por causa de uma mania, uma certa paixão: a festa de Momo, que ele ajudou a transformar com a criação da Banda. Com saudade dos antigos carnavais, e para falar de uma das coisas que mais gosta, o ex-presidente do Clube Literário – onde a Banda Mole nasceu – nos recebeu para um rápido bate-papo. E para falar um pouco dessa “mania” que é a Banda Mole.

            Segundo ele, tudo começou em 1975, uma semana depois do carnaval, numa reunião no bar do Clube, para uma cervejinha com James, Carlinhos Letrão e Tonico Bartelega. “Falávamos sobre o carnaval que havia se encerrado há poucos dias, quando no meio da discussão, observando que faltava alguma coisa na festa, resolvemos criar a Banda Mole, a qual desfilou já no ano seguinte”, contou. E acrescentou: “o Clube Literário era depositário dos instrumentos de sopro da Banda ‘União Beneficente de Guaratinguetá’. Então nós convidamos os músicos da Banda de ‘Santa Luzia’ para tocar na Banda Mole. Foram eles os primeiros músicos, tendo Verges como primeiro maestro”. De 1976 até 1981, a Banda Mole sempre conduziu o sábado de carnaval embalada pelas músicas da época. A partir de 81 começou a fazer as paródias, que se transformaram num grande sucesso. Foi nessa época também que a Banda idealizou um concurso para escolher seu hino e os vencedores foram José Luiz Castro e “Zé Buchinha”.

            Para “Carlucho” a paródia de 1985, aquela do episodio da Lílian Ramos com o presidente Itamar Franco foi a melhor de todos os tempos, até pelo contexto daquela época. Por falar em contexto, houve um episódio em um carnaval, no período da ditadura e da repressão policial, em que Banda teve de “driblar” a censura da Polícia Federal, que tinha uma Sede na cidade de Lorena. “Eles queriam saber a todo custo a razão da banda se chamar Banda Mole. Eles achavam que era uma afronta a alguém ou coisa parecida, mas não era. Mas como nós não estávamos muito interessados em explicar, nós inventamos o seguinte para eles: olha, a Banda tem esse nome porque na verdade ela se chama ‘Banda da Mocidade do Literário’. E colou; eles acreditaram”, disse sorridente. Para ele, a Banda sempre teve bons parceiros, como o médico Caetano Caltabiano Coutinho,  o advogado e deputado federal Marcelo Ortiz e outros, como “Gango” e “Fon Cipolli”.

Um dos grandes compositores das paródias segundo ele foi o “Zeza”, um juiz federal hoje aposentado. “Pouca gente ou quase ninguém sabe disso, até porque ninguém podia saber por causa do cargo que ele ocupava na época. Imagine. Um juiz federal compositor daquelas paródias”, comentou. Um outro grande compositor é o músico Flávio Augusto. Aliás, a maioria das paródias da Banda Mole durante esse tempo todo foram compostas por eles. Para “Carlucho” a sua grande preocupação é a de nunca modificar as características da Banda, dada a renovação que aos poucos vem acontecendo. “Novos personagens estão surgindo e eu espero que eles dêem continuidade à Banda Mole”. Para ele, o que mais marcou este tempo de existência da Banda foi a sua descontração e o bom relacionamento – e de uma certa forma  – até a ajuda da Igreja. “Olha. Nosso ponto de partida sempre foi o centro da cidade e sempre depois que acabava a missa na Igreja Matriz. Era até engraçado. O Padre Bindão falava da Banda e no final da missa dizia: podem ir, podem ir ver a Banda Mole”.

Para o fundador da Banda Mole, existe a idéia sobre um livro para contar toda a história da Banda, mas isso ainda é só um projeto, uma idéia. Sobre um fato pitoresco ele afirma: “O mais pitoresco de tudo isso é o fato de fazermos cerca de duas ou três reuniões no máximo, antes do carnaval, para organizar a Banda. Esse é o pitoresco, ou seja, o fato de não haver reunião”, comentou aos risos. Para quem não sabe, “Carlucho” já participou do carnaval das escolas de samba da cidade por duas vezes. Uma, por volta de 1975, quase que junto com a criação da Banda Mole. Foi na Beira Rio, quando a Escola mantinha uma certa relação com o Literário. “Nós éramos muito descontraídos e naquela ocasião resolvemos colocar a Beira Rio para disputar o carnaval com as outras Escolas. Não havia a mínima chance, porque existiam escolas poderosas dentro do carnaval. E nós, nós saíamos no desfile debochando das pessoas, mexendo com os jurados, jogando coisas nas cabeças dos jurados, enfim. Fomos expulsos da Escola (risos). A outra experiência foi na época da divisão das cores verde e rosa do Campinho, quando criaram a Verde e Rosa e o bairro passou a ter duas escolas de samba. E emendou: “naquela época eu só ajudava um pouco e não cheguei a participar ativamente”.

            No final desse encontro, agradeceu a nossa visita e confidenciou o seguinte: existem outras três Bandas com o mesmo nome da nossa, em três cidades diferentes do país; em Santos, Belo Horizonte e Maringá. E que elas foram criadas por pessoas que conheceram a Banda Mole de Guaratinguetá, por terem residido ou trabalhado em nossa cidade. E mais ainda: que existe um grupo de franceses que vem de Paris todo ano para desfilar na Banda. Bem. O certo é que gostaríamos de ter conversado bem mais tempo, mas não houve jeito. Afinal, nossas páginas são poucas – ou quase nada – se comparadas ao espaço que é necessário para falar da Banda Mole e de seu expoente maior. De qualquer maneira, dá para se ter uma noção exata de quem é o “Carlucho” e o que ele representa não só para o carnaval, mas também para toda uma geração, que aprendeu a gostar do carnaval e a viver Guaratinguetá, a partir dos desfiles da Banda. Nada de obrigado. O Abre-Alas é quem agradece, “Carlucho”! Por você ser dentista de profissão e carnavalesco por vocação.


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